Palpitações: veja os diagnósticos e tratamentos

Palpitações: veja os diagnósticos e tratamentos

As palpitações constituem um dos sintomas cardiovasculares mais desafiadores da prática clínica devido à ampla variedade de condições que podem estar envolvidas em sua gênese. Embora frequentemente despertem preocupação relacionada à presença de arritmias, a etiologia pode envolver desde alterações benignas do ritmo cardíaco até doenças estruturais complexas, transtornos psiquiátricos e distúrbios metabólicos.

A identificação da causa subjacente é particularmente importante porque a conduta, o prognóstico e a necessidade de investigação complementar variam substancialmente conforme a origem do sintoma.

Em um estudo envolvendo pacientes cuja principal queixa era palpitação, foi possível estabelecer uma etiologia específica em aproximadamente 84% dos casos. As causas cardíacas corresponderam a cerca de 43% dos diagnósticos, enquanto condições psiquiátricas representaram aproximadamente 31%, evidenciando a necessidade de uma abordagem ampla e sistemática durante a avaliação clínica.

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Etiologias cardíacas

As causas cardiovasculares representam a principal preocupação do médico diante de um paciente com palpitações, especialmente pela possibilidade de associação com eventos adversos, instabilidade hemodinâmica e morte súbita.

As arritmias constituem o grupo mais frequentemente relacionado ao sintoma. Tanto as taquiarritmias quanto as bradiarritmias podem gerar percepção anormal dos batimentos cardíacos, embora os mecanismos fisiopatológicos envolvidos sejam distintos.

Entre as taquiarritmias supraventriculares, destacam-se as taquicardias por reentrada nodal e as taquicardias associadas a vias acessórias. Nesses pacientes, é comum a descrição de episódios abruptos de início e término súbitos, frequentemente acompanhados por sensação de pulsação cervical intensa decorrente da contração atrial contra valvas atrioventriculares fechadas.

A fibrilação atrial também deve ser considerada no diagnóstico diferencial, particularmente em indivíduos idosos ou portadores de cardiopatia estrutural. Nesses casos, o paciente tende a relatar irregularidade dos batimentos mais do que aceleração sustentada da frequência cardíaca.

As extrassístoles atriais e ventriculares representam outra causa frequente de palpitações. Embora geralmente benignas na ausência de doença estrutural cardíaca, podem provocar desconforto significativo e levar o paciente a procurar atendimento médico. Em muitos casos, a percepção clínica corresponde não à extrassístole em si, mas ao batimento subsequente, que apresenta maior volume sistólico devido ao aumento do enchimento ventricular.

Além das arritmias, diversas doenças estruturais podem estar associadas ao surgimento de palpitações.

Entre elas destacam-se:

  • Prolapso da válvula mitral.
  • Miocardiopatia dilatada.
  • Miocardiopatia hipertrófica.
  • Doença valvar aórtica.
  • Mixoma atrial.
  • Cardiopatias congênitas.

Essas condições não apenas favorecem o aparecimento de arritmias, como também podem alterar a dinâmica cardiovascular e aumentar a percepção dos batimentos cardíacos.

Outro grupo frequentemente negligenciado envolve os estados de alto débito cardíaco. Nessas situações, o aumento fisiológico ou patológico do fluxo sanguíneo pode gerar sensação persistente de pulsação, mesmo na ausência de uma arritmia documentada.

Etiologias psiquiátricas

As doenças psiquiátricas representam uma parcela expressiva dos diagnósticos finais em pacientes avaliados em ambiente ambulatorial.

Transtorno do pânico, ansiedade generalizada e somatização estão entre as causas mais comuns. Nesses casos, a ativação do sistema nervoso simpático promove aumento da frequência cardíaca e amplificação da percepção dos batimentos, criando um ciclo de retroalimentação entre sintomas físicos e sofrimento emocional.

Um aspecto relevante é que a presença de transtornos psiquiátricos não exclui a coexistência de doença cardiovascular. Por esse motivo, a atribuição prematura dos sintomas a causas emocionais pode resultar em atraso diagnóstico de condições potencialmente graves.

Alterações metabólicas e endocrinológicas

Diversas alterações sistêmicas podem desencadear palpitações por mecanismos relacionados ao aumento do tônus adrenérgico, à alteração da contratilidade miocárdica ou à instabilidade elétrica cardíaca.

O hipertireoidismo ocupa posição de destaque nesse contexto. Tremores, hiperreflexia, perda ponderal inexplicada e intolerância ao calor constituem sinais clínicos que devem aumentar a suspeita diagnóstica.

Outras condições frequentemente associadas incluem:

  • Anemia.
  • Hipoglicemia.
  • Febre.
  • Desidratação.
  • Distúrbios hidroeletrolíticos.

Pacientes com episódios recentes de diarreia ou vômitos merecem atenção especial, uma vez que a hipovolemia e as alterações eletrolíticas podem precipitar arritmias e intensificar sintomas preexistentes.

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Medicamentos e substâncias estimulantes

A investigação medicamentosa deve fazer parte obrigatória da avaliação inicial.

Diversos fármacos e substâncias recreativas apresentam potencial pró-arrítmico ou estimulam excessivamente o sistema nervoso simpático.

Entre os agentes mais frequentemente envolvidos estão:

  • Cafeína.
  • Álcool.
  • Cocaína.
  • Anfetaminas.
  • Pseudoefedrina.
  • Alguns broncodilatadores.

A identificação desses fatores é particularmente importante porque sua remoção pode ser suficiente para resolução dos sintomas, evitando exames desnecessários e reduzindo custos assistenciais.

O papel do ritmo sinusal normal

Um aspecto frequentemente subestimado na prática clínica é a ocorrência de palpitações em pacientes sem qualquer alteração significativa do ritmo cardíaco.

Estudos demonstram que até 30% dos indivíduos com palpitações sintomáticas apresentam apenas ritmo sinusal normal durante os episódios registrados. Nesses casos, a percepção aumentada dos batimentos pode estar relacionada a fatores autonômicos, emocionais ou comportamentais.

Esse dado reforça a importância de correlacionar sintomas e registros eletrocardiográficos antes de atribuir os sintomas a uma arritmia específica.

Mais do que identificar uma alteração do ritmo cardíaco, o principal objetivo da investigação inicial deve ser determinar se existe uma condição cardiovascular subjacente capaz de modificar o prognóstico do paciente.

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Publicado em 24/06/2026