Especialidades em medicina: e se você estiver na errada? Entenda como o caso da Dra. Mohan, de The Pitt, pode te ajudar

Especialidades em medicina: e se você estiver na errada? Entenda como o caso da Dra. Mohan, de The Pitt, pode te ajudar

O caso da Dra. Mohan, personagem de “The Pitt” (HBO), ilustra um questionamento real na carreira médica: sentir-se mal encaixado na especialidade médica é falta de competência ou é desalinhamento?

O que você vai entender aqui:

  • O Brasil reconhece hoje 55 especialidades médicas e 62 áreas de atuação, segundo a Comissão Mista de Especialidades, homologada pelo CFM. O volume é grande o suficiente para tornar a escolha (ou a troca) de especialidade uma decisão estratégica, não só vocacional.
  • “The Pitt” venceu o Emmy de Melhor Série de Drama pela segunda vez seguida em 2026, e é elogiada por médicos reais justamente pela precisão com que retrata dilemas de carreira como o da Dra. Mohan.
  • Em entrevista, a atriz Supriya Ganesh contou que também se sentia desconfortável com a sugestão de mudança de especialidade médica que a personagem recebeu.
  • Existem três caminhos no Brasil para trocar de especialidade médica: residência médica, prova de título e pós-graduação.
  • Segundo estudos de base populacional citados no artigo, a polifarmácia entre idosos chega a 57,7% na atenção primária de Belo Horizonte.

Mais um dia no pronto-socorro (PS). Uma senhora chega com uma fissura no quadril. Ela se machucou depois que o marido a atingiu sem querer com o carro do casal. Qualquer plantonista conhece o roteiro provável dali em diante: anamnese, imagem, analgesia, avaliação ortopédica etc. A Dra. Samira Mohan faz outra coisa.

Ela olha para quem estava ao volante. Preocupada com o homem idoso, aplica nele o teste de Romberg e percebe que ele tem dificuldade para manter o equilíbrio. Mais tarde, ela e outra médica descobrem que a interação entre remédios receitados ao homem vinha prejudicando o funcionamento dele no dia a dia.

É medicina de primeira linha. No mesmo plantão, o chefe do pronto-socorro, Dr. Robby, sugere que Mohan deveria trabalhar com Geriatria, citando a “predisposição ao ritmo” dela. E ela se ofende.

A cena dói porque mistura elogio e crítica na mesma frase. E toca num incômodo que muitos médicos conhecem.

Neste artigo, você vai entender o que o arco da Dra. Mohan da série “The Pitt” revela sobre as especialidades em medicina e porque a escolha deveria partir também das suas habilidades clínicas. Além disso, vai entender quais caminhos reais existem no Brasil para quem quer mudar de rota.

Quem é a Dra. Samira Mohan (e por que o apelido dela diz mais sobre o PS do que sobre ela)

The Pitt é a série da HBO que acompanha um plantão de pronto-socorro em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Cada episódio corresponde a uma hora do dia, e cada temporada tem 15 episódios. Em 2026, a produção venceu pela segunda vez seguida o Emmy de melhor série de drama.

Entre os personagens que geram identificação em médicos reais está a Dra. Samira Mohan, residente vivida por Supriya Ganesh. Ela é conhecida pelos altos índices de satisfação dos pacientes, mas sofre com o ritmo acelerado da emergência e passa a questionar se tem lugar na especialidade.

Seu cuidado centrado no paciente é retratado como lento demais, por isso ela ganhou o apelido de “Slow-Mo”.

O detalhe que muita gente esquece é que esse “excesso de cuidado” faz com que ela consiga fazer diagnósticos precisos para os casos. Ou seja: não falta competência à Mohan. O que ela tem é um tipo específico de competência, que, nem sempre, combina com o pronto-socorro.

Por que o atendimento cuidadoso não é o mesmo que “lento”

Ninguém gosta de ser questionado sobre suas habilidades. A sugestão do chefe do PS, por mais que foi feita de forma errada, aponta para que as aptidões pessoais podem nos alavancar ou prejudicar na carreira.

A frase do Robby carrega um estereótipo antigo: a Geriatria seria a especialidade de quem não aguenta a adrenalina. A cena mostra o oposto.

Pense no que o caso exigiu. Mohan precisou suspeitar de um problema que ninguém tinha relatado, examinar um paciente que não era o dela e revisar a lista de medicamentos dele. Nada disso é lento. O tempo que ela gasta é o tempo que o raciocínio clínico de fato precisa.

Para se ter uma ideia, o problema encontrado por ela também é uma realidade do Brasil: segundo um estudo realizado na atenção primário de Belo Horizonte, a prevalência de polifarmácia em idosos é de 57,7%. Em média, eles utilizam 5,2 medicamentos diariamente.

É importante destacar que a polifarmácia está associada a eventos adversos, quedas, fraturas, hospitalizações, readmissões e até óbito. Quem tem paciência para revisar uma receita inteira está atuando diretamente sobre esses desfechos negativos.

Em entrevista à TV Insider, ao comentar a sugestão da Geriatria, a atriz Supriya Ganesh contou que sentia o ar sair do corpo ao gravar, porque aquilo parecia muito diferente do que a personagem imaginava para a própria carreira. Mas, ao mesmo tempo, poderia ser o caminho mais adequado.

Seu jeito de atender também é uma competência. Se você se reconheceu na Mohan, vale descobrir em que área seu talento rende mais.

Especialidades em medicina: qual combina com o seu perfil?

O leque é grande. Segundo a Resolução CFM nº 2.380/2024, o Brasil tem 55 especialidades reconhecidas e 62 áreas de atuação médica. Com tantas opções, é comum escolher por fatores externos, e só depois vem a percepção de que o dia a dia não conversa com a forma como você pensa.

A tabela abaixo não é um teste vocacional. É um ponto de partida para cruzar o seu perfil com as características de cada área.

HabilidadesEspecialidade médica sugerida
Se sente bem com decisões rápidas, procedimentos e imprevisibilidadeMedicina de Emergência, Medicina Intensiva, Anestesiologia
Gosta do “caso difícil” e de investigar até fechar o diagnósticoClínica Médica, Infectologia, Reumatologia, Neurologia
Valoriza vínculo, escuta e acompanhamento ao longo do tempoGeriatria, Medicina de Família e Comunidade, Psiquiatria
Lida bem com conversas difíceis e decisões compartilhadas com a famíliaGeriatria, Medicina Paliativa (área de atuação)
Pensa em sistemas, populações e prevençãoMedicina do Trabalho e saúde laboral

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Quando a especialidade errada começa a cobrar a conta

O desencaixe raramente aparece de uma vez. Ele costuma dar sinais aos poucos:

  • As partes do trabalho de que você mais gosta são justamente as que o serviço trata como atraso;
  • Você recebe elogio de paciente e cobrança da chefia pelo mesmo motivo;
  • Você termina o plantão com a sensação de ter atendido muita gente sem ter cuidado de ninguém;
  • Os temas que você estuda por prazer não têm nada a ver com a sua rotina.

Na série, a pressão acumulada tem consequência visível. Em um dos episódios, Mohan fica desorientada durante um atendimento e recebe o diagnóstico de crise de pânico.

Claro que esgotamento tem muitas causas, e nem todas se resolvem mudando de área ou especialidade médica. Mas vale a reflexão: parte do desgaste pode vir de passar anos tentando ser o médico que o serviço quer, em vez do médico que você é.

Como mudar de especialidade médica: os caminhos reais no Brasil

Mudar de área é mais comum do que parece. Segundo a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, entre os médicos especialistas brasileiros, 20,9% acumulam dois ou mais títulos em especialidades diferentes.

A seguir está a lista de caminhos possíveis para mudar de especialidade.

Residência médica

É a via mais tradicional. Segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, 63,7% dos títulos de especialista no Brasil foram obtidos por residência médica. No caso da Geriatria, o programa dura 2 anos e exige como pré-requisito 2 anos de residência em Clínica Médica.

Título pela sociedade de especialidade

Os outros 36,3% dos títulos vieram de exames aplicados pelas sociedades médicas vinculadas à AMB. Na Geriatria, por exemplo, o título é concedido pela SBGG em parceria com a AMB.

Lembre-se sempre de conferir o edital antes de se planejar.

Pós-graduação lato sensu

É o caminho para quem quer aprofundar a teoria e a prática clínica sem interromper a rotina atual. A pós-graduação não substitui a residência nem dá título de especialista, mas amplia o repertório para atender melhor, existindo, inclusive, cursos focados em práticas médicas.

Além disso, uma pós-graduação médica é útil para a docência e conta pontos em concursos.

Se o caso relatado falou com você: a pós-graduação em Geriatria da UnyleyaMED aborda Avaliação Geriátrica Ampla, prevenção de quedas e síndromes geriátricas como instabilidade postural e iatrogenia. Além dessa, a faculdade também tem outras áreas disponíveis.